Temperaturas acima dos 30º graus ao domingo convidam para um picnic. E a Zsanett convidou-me a mim também. Não há como negar. O local escolhido foi Kopaszi gát, à beira do Danúbio, com Peste no horizonte.
Houve fruta, snacks húngaros, bolachas de cacau, sandes de paté de fígado (que eu comprei convencida que era paté de atum, ou coisa parecida) e formigas, muitas formigas.
Zsanett, psicóloga, filósofa e fotógrafa nos tempos livres
Ontem, sexta-feira, dia 4 de Julho assisti ao mais belo espectáculo que os meus olhos já tiveram oportunidade de presenciar. Uma montanha de emoções e surpresas que me deixaram de boca aberta. As surpresas superavam-se uma a outra com regularidade e ferverência tal que se a figura de chapéu peculiar que dominava o palco me visse diria algo como:
"Close your mouth, please, Lily. We are not a codfish."
Já advinharam?
Falo-vos da famosa baby-sitter cujos peculiares métodos para resolver problemas incluem "colheres de sopa de açúcar". Mary Poppins, um dos maiores e intemporais espectáculos musicais. A palavra espectáculo ganhou a noite passada todo um novo sentido. Doravante cuidarei de categorizar de espectáculo com maior atenção e reflexão. É o mínimo que a fantástica produção de ontem merece.
O elenco é absolutamente formidável. As palmas concentraram-se, naturalmente, na actriz principal, no papel de Mary Poppins, que para mim tinha a tarefa de se comparar à maravilhosa e premiada Julie Andrews. Não me desiludiu. Mas a aclamação concentrou-se também nas duas crianças, no papel de Jane e Michael, e na Miss Andrews, cuja curta prestação se concentrou na sua enorme voz e projecção que conquistaram toda a sala, apesar do ar pouco simpático - mas extremamente cómico - da sua personagem.
Uma boa peça de teatro é feita de bons actores. Mas um musical é feito de muito mais. O guarda-roupa é completamente soberbo, não fosse esta produção fruto de uma parceria com a Disney. Os cenários giratórios, de casas gigantes a emergirem do palco, de estrelas incorporadas em casacos dos personagens, e projecções interactivas - com que o Bert nos ilude na famosa cena de pintura no parque. As ilusões de vassouras voadoras, portas que se fecham e abrem com um olhar de Mary Poppins, ramos de flores a surgirem do nada, músicas que nos desafiam a olhar para o céu e luzes que apontam estrelas para o público. Tudo isto com um jogo de luzes e coreografia que não nos deixam ver um único fiozinho que quebre a magia. E viajamos com o chapéu para um universo onde tudo é possível.
[A única coisa a apontar são as falhas nas legendas em inglês, que muitas vezes não estavam sincronizadas com o desenrolar da acção. Mas o que importa isso para alguém que sabe as falas de cor? E garanto-vos que a imersão é de tal forma intensa que o facto de acontecer numa das mais díficeis línguas do mundo torna-se secundário.O que a torna "practically perfect in every way".]
Quando chega a hora de Mary Poppins partir e achamos que já vimos de tudo, a peça encerra com a Mary Poppins a "voar" por cima do público, levando miúdos - e quem é que eu ainda estou a tentar enganar? - corrijo: levando TODA a sala ao rubro. Eu acreditei que isto estava a acontecer. That's quite something, hun?
Deixo-vos um vídeo onde poderão ver alguns excertos da peça, com algumas mudanças no actual elenco, mas que abre o pano para os truques com as vassouras e objectos voadores e para o cenário e guarda-roupa.
A sala de espectáculos acolhe ainda musicais com nomes tão sonantes como eles próprios. Mamma Mia!, Cats e O Fantasma da Ópera são alguns dos cartazes que convidam todos os que passam por Budapeste a esta experiência magnifica da Broadway no Leste Europeu.
E por mais que eu o tente descrever, não há palavras suficientes. Ou talvez exista uma em particular...
Esta é a história de como me tornei vegetariana na Hungria. É uma história curta. Aconteceu esta manhã, quando a minha amiga Alexandra me enviou notícias "fresquinhas" de Portugal.
A minha amiga húngara diz que é na parte Este da Hungria, mas aconselha-me a não arriscar e a comer outra coisa qualquer que não carne de vaca. Pois bem, eu digo: nada de carne de todo.
A-C-A-B-O-U!
Já não bastava não haver peixe e agora tiram-me a carne.
Para não falar de que continuo a comprar bolos que penso serem de chocolate e não são.
Castelo de Leiria VS Parlamento Húngaro, Budapeste
Hoje comi peixe pela primeira vez em dois meses e o meu estômago não gostou. Não sei se já não sabe o que é peixe e rejeitou, ou se por outro lado - esta hipótese parece-me mais plausível - sabe bem o que é peixe e sabe que esta amostra húngara que eu lhe dei em nada se equipara ao nosso peixinho fresquinho português.
Tenho saudades de Lisboa, mas também tenho muitas saudades de Leiria. E da comidinha dos deuses. E dos bolinhos da minha avó. E do meu irmão adolescente. E da família toda. E das primocas bebés e dos primos emprestados. Do Castelo e das minhas amigas do trabalho.
Já só faltam dois meses. E já tenho saudades de Budapeste também.
Hoje é quinta-feira, dia de reunião da equipa da publicação
alemã do Budapest Times. Sento-me numa secretária livre e tento ser o mais
discreta possível. Vou retirando as minhas coisas da mala uma a uma. Enquanto o
faço, sorrio mentalmente, a pensar no musical da Mary Poppins de amanhã e
equaciono a utilidade que daria à famosa mala da personagem. Tiro o computador,
tiro a garrafa de água. Pouso e arrumo os óculos de sol e substituo-os pelos
óculos de trabalho. Ainda mergulhada no mundo da Poppins bebo um pouco de água
para recuperar do calor que apanhei no caminho.
Não sei se já vos disse, mas digo-vos agora. Estas garrafas
de água são as piores. Têm a pior qualidade de sempre. O plástico é de uma
espessura extremamente fina e frágil, o que as torna altamente maleáveis. E com
isto, tornam-se perigosas de manusear por uma miúda com a cabeça nas nuvens e
universo da Disney e uma sala cheia de gente.
Vou começar a escrever todos os dias na agenda.
Vou começar a escrever todos os dias na agenda.
Vou começar a escrever todos os dias na agenda.
Vou começar a escrever todos os dias na agenda.
Todos os dias. Todas as coisas. Todos os compromissos. Toda a lista de compras. Todos os emails enviados e por enviar. Os bilhetes por comprar. Os concertos agendados. Tudinho.